— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, 13alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”.
14Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” 15E
disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância,
porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não
consiste na abundância de bens”.
16E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. 17Ele pensava consigo mesmo: ‘Que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. 18Então
resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir
maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ 20Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’ 21Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”.
- Palavra da Salvação.
- Glória a vós, Senhor.
Comentário
O Evangelho de hoje se inicia com uma séria advertência: “Atenção!
Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém
tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de
bens” (Lc 12,15)
Na realidade, Jesus usa em presente de infinitivo o verbo “exceder”. A tradução seria:
“porque na realidade a vida de alguém não consiste em ter excesso de posses”.
A vida não consiste em acumular riquezas. E, na continuação, Jesus
explica o porquê desta afirmação que fará com que Paulo descreva a
cobiça como uma forma de idolatria (cf. Cl 3,5).
No Evangelho, Jesus fala de um homem cujas terras produziram uma colheita copiosa:
“Que farei, pois não tenho onde estocar semelhante riqueza?” Ele só pensou em si mesmo, para viver uma vida de descanso e prazer. Como diz o apóstolo Paulo em I Cor 15,32:
“comamos e bebamos que amanhã morreremos”.
E com a finalidade que também propõe o livro do Sirácida:
“encontrei descanso; agora comerei de meus bens”
(11,19), aquele homem pensa em aumentar a capacidade de seus celeiros
para ter uma vida fácil, sem preocupações, para descansar, comer, beber e
gozar – como muitos fazem nos dias de hoje.
Uma solução mais fácil seria repartir o que não coubesse nos celeiros
com os mais necessitados, ou vender a preço mais acessível o excedente.
Seria uma maneira de ajudar a quem não tem e cumprir com o que Tobias
recomendava a seu filho:
“Dá esmola de tudo que te sobrar e não sejas avaro na esmola” (Tb 4,16).
Num caso de justiça Jesus é interpelado. Mas Jesus recusa ser juiz. A
justiça, considerada do ponto de vista humano, é falha e deixa muito a
desejar. No litígio, os homens enfrentam uma guerra que mata não os
corpos mas a amizade e o amor. Por isso Jesus dirá:
“Assume uma
atitude conciliadora com o teu aniversário, enquanto estás no caminho,
para não te acontecer que teu aniversário te entregue ao juiz e o juiz
ao oficial de justiça e assim, sejas lançado na prisão” (Mt 5, 25).
Porém,
“a caridade não procura o seu próprio interesse, não se
irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se
regozija com a verdade” (I Cor 13,5-6). De fato, todas as
revoluções em nome da justiça, da igualdade e da liberdade têm sido
extremamente cruentas e abundantes em mortes humanas. Muitas buscam a
desforra e a vingança. Por isso, todas as encíclicas sociais terminam
com a mesma advertência: a justiça deve ser temperada pela caridade que é
a que tem a última palavra nas relações sociais.
Talvez não tenhamos em conta que num mundo tão injusto como o romano,
de escravos e cidadãos diversamente classistas, Jesus nada disse a
respeito. Porém, a ênfase evangélica está na justiça divina para a qual
Lucas deixa a definitiva sentença, como o
“Ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação!” (Lc 6,24).
O problema da desigualdade – para não dizer péssima distribuição das
riquezas – tem como solução uma voluntária redistribuição das mesmas, de
modo que os mais ricos enriqueçam os mais pobres com as riquezas que
para eles sobram e para estes faltam. A chamada
esmola deve ser considerada como uma necessidade voluntária de distribuição das riquezas.
Mais do que condenar os ricos, devemos pregar a pobreza voluntária,
desterrando a ambição como programa humano e oferecendo a simplicidade e
austeridade de vida como objetivo evangélico e ideal social.
Padre Bantu Mendonça